Direitos Humanos

Dia Mundial dos Direitos Humanos
Realidade escondida

Portugal

 Havia uma palestra no auditório, na última hora de aulas sobre a discriminação das mulheres no Médio Oriente. Óptimo, menos tempo a ouvir matérias aborrecidas.
 Uma senhora que tinha sido convidada coloca-se atrás do microfone e começa a falar:
“Desde o inicio da humanidade que é necessário que hajam normas a seguir, bem como punições, para orientação das sociedades. No entanto, ao longo da sua evolução, a o ser humano foi tomando consciência de que nem todas essas regras são correctas. Começaram as questões: Será justo julgar um ser humano por características que não digam respeito à sua humanidade? Na minha opinião, não.
A dignidade humana deve ser o principal factor que inspire os direitos humanos. Estes, devem, no meu ponto de vista, ser subscritos por todos os estados, através da Declaração Universal dos Direitos Humanos, para que todas as pessoas sejam contempladas com essa garantia, ainda que, infelizmente, demasiado teórica. Demasiado teórica porque, mais do que a assinatura de um documento por parte de um chefe de estado, é necessário que os cidadãos estejam sensibilizados para a importância dos seus direitos, que acarretam deveres para com os outros.
Todos os homens têm direitos enquanto simples seres vivos, mais básicos, relacionados principalmente com a sobrevivência, e como humanos, mais complexos e discutíveis, relacionados com a dignidade de cada um (cuja definição não deve variar de cultura para cultura!).
Vejamos o caso das mulheres islâmicas, obrigadas a cobrir todo o corpo, incluindo o rosto, de preto, para evitar que os homens caiam em pecado. Estas mulheres também não escolhem, nem sequer conhecem os seus maridos, muitas vezes já com mais esposas e muito mais velhos do que elas, antes do casamento; e não podem pedir o divórcio sem o risco de ficarem sozinhas, sujeitas a todos os perigos que esse estado lhes acarreta porque a família, envergonhada, não a aceita de volta. A sua palavra não tem valor perante a de um homem, já que são seres considerados inferiores. Se forem violadas, são consideradas culpadas e apedrejadas. Não querendo discutir sobre a religião islâmica, até porque são os próprios islâmicos que negam que estas regras estejam ligadas à religião, será legítimo sacrificar a liberdade de metade de uma sociedade em prol da outra? Em especial quando essa metade nem sequer pôde escolher sacrificar-se? Parece-me que não. E conseguiriam os homens desses países viver sem as suas mulheres? Não, por isso, mais cuidado ainda deveriam ter em assegurar os seus direitos. Todos nascemos iguais e livres e, independentemente do que uma cultura possa defender, a dignidade de cada um deve ser respeitada. As leis devem ser feitas com imparcialidade. É necessário também que reconheçam que uma sociedade reprimida como a maioria das sociedades muçulmanas não sobreviverá muito tempo. Mais cedo ou mais tarde dar-se-ão revoltas, e uma mudança que poderia ser pacífica será violenta.
A sociedade ocidental que, no geral, assimilou e respeita os direitos humanos, conhece a realidade do Médio Oriente, no qual a discriminação das mulheres é apenas uma parte do problema, não pode continuar a ser tão passiva no que diz respeito a fazer cumprir normas que preservem e protejam a dignidade de cada um. Somos, em parte, responsáveis por essas realidades, porque não temos tido a coragem de intervir.
 Temos de fazer compreender aos governantes do Médio Oriente que maltratar metade da população dos seus países, além de não ser moralmente legítimo e ir contra os Direitos Humanos, poderá acarretar revoltas. É necessário que admitam que as mulheres são, tal como os homens, uma parte importante e fundamental da sociedade.
Mas não devemos apenas apontar os defeitos das outras sociedades. Também a nossa tem falhas e todos os dias ocorrem atentados contra os Direitos Humanos no Ocidente, e não só contra as mulheres.”
 Poucos a ouviram. Mas em que mundo vive aquela mulher? Estamos no século XXI, estas coisas já não acontecem… As mulheres muçulmanas podem não ter tantos luxos como as ocidentais, mas têm direitos, que são respeitados. Se assim não fosse já alguém teria feito alguma coisa, não é?
 Ao sair do auditório, o grupo de amigas completa os planos para a festa dessa noite. Uma festa… vinha mesmo a calhar. Tinha sido o último dia de escola e havia mais em que pensar.
E ao chegar a casa, tudo se resume a usar ou não o vestido rosa. Tudo se resume a usar ou não o vestido azul. Ela penteia os cabelos, só vê o seu reflexo. Não há mais ninguém no mundo.
Arábia Saudita
A minha mãe tentava disfarçar-me as nódoas negras com um creme da cor da minha pele. É o dia do meu casamento e o meu noivo vai ver-me pela primeira vez; não posso apresentar-me a ele com marcas na pele.
 Nem sei o nome dele, desse homem desconhecido a quem vou pertencer. Foi o meu pai que me avisou, na semana passada, que me ia casar. E foi assim que fiquei com as nódoas negras… Uma mulher tem de ser silenciosa e não perguntar nada, os homens é que sabem.
 A minha mãe pergunta-me se já sangrei.
 - Sim, mãe, sangro todos os meses, como sabe. Foi quando comecei a usar o véu. – aquele odioso véu negro, que não me deixa respirar nem ver, e que não posso levantar nem por um bocadinho.
 Ela abanou a cabeça. Se já tinha sangrado com algum homem…
 - Não, nunca. Nem nunca falei com nenhum que não fosse o pai ou o Ali. – Ali é o meu irmão.
  A minha mãe elevou os olhos para o céu, agradecida. Se hoje eu não sangrasse com o meu novo marido, ele devolver-me-ia à casa do meu pai. E ele não me aceitaria de volta, porque traria desonra à família; além disso, deve estar feliz por se ver livre de mim, é menos uma mulher que tem a estorvar.
 - Não suportava ver-te na rua, sozinha e humilhada como a tua irmã, que não teve culpa de nada. – a minha mãe parecia seguir  a ordem dos meus pensamentos. A minha irmã não sangrou na noite do casamento, mas a culpa não foi dela; tinham-na obrigado. Mas na lei dos homens, somos sempre as culpadas.
 Ontem sonhei que vivia longe, muito longe. Passeava nas ruas de um lugar estranho onde as mulheres mostravam a cara e as pernas, conduziam (vi dois carros com mulheres atrás do volante) e conversavam despreocupadamente. Não sei onde fui buscar essas ideias estúpidas, mas o sonho perturbou-me e contei-o à minha mãe. Ela disse-me que parasse de pensar em blasfémias, que esse mundo não existia, Alá fosse louvado; eu devia preocupar-me era em ser uma boa esposa.
 - Deves obedecer sempre ao teu marido, nunca lhe respondas, não o olhes nos olhos se ele não te autorizar, nunca lhe digas que não, dá-lhe muitos filhos e poucas filhas, … - e ela continuava. E eu já não a ouvia.
 Como seria ele? Teria perto da minha idade ou poderia já ser meu avô? Será que já tinha mais mulheres? E filhos? Tratar-me-ia bem? Bater-me-ia? Deixar-me-ia sair? Teríamos uma criada ou seria eu a fazer tudo?
 Saímos do quarto. Esperavam-nos no salão as mulheres da nossa família, o meu pai, o sacerdote, o meu noivo e mais duas mulheres que eu não conhecia. Ele devia ter perto de cinquenta anos e as duas mulheres que se mantinham a seu lado eram pouco mais velhas do que eu, mas tinham sombras por baixo dos olhos. Estariam tristes por não terem o marido tanto tempo com cada uma delas agora que eu me casava com ele, ou por uma antecipação de saudades?
 A resposta encontrei-a nos olhos dele. Miravam-me de alto a baixo com impaciência, como que a avaliar se lhe daria filhos fortes; não parecia querer conhecer-me ou ter curiosidade sobre a minha personalidade. Como seria de esperar.
 Espero que me bata menos que o meu pai… Espero dar-lhe filhos… Espero que goste mais das outras mulheres e me deixe sozinha… Espero que o meu sonho seja realidade, espero que esse mundo exista…
(Esta história é ficção, mas todos os dias acontecem outras semelhantes. Baseei-me em factos verídicos relatados em livros como “Sultana”, de Jean Sasson ou “Queimada Viva”, de Souad. É importante que todos saibam o que acontece no Mundo em que vivemos.)

Maria Alexandra Tão - 11º D

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