Um dia conheci um sujeito deveras peculiar. A sua rotina diária era uma espécie de prisão auto-infligida, uma prisão social, do corpo e da mente. Ao acordar, a sua primeira preocupação, mesmo antes de tratar da sua higiene pessoal, era ligar o computador e verificar se tinha ganho as apostas online que tinha feito na noite anterior. De seguida, ia dar de comer aos animais da sua quinta virtual e registar a sua inscrição no torneio de poker que lhe ocuparia o tempo, mais ao menos, até à hora de almoço. Mil quinhentos e cinquenta dólares livres de impostos eram, em média, o seu lucro diário. Tudo conseguido à custa de apostas e jogos de cartas online.
O habitual chop suey de vaca e camarão com caril era o seu próximo alvo. Deliciava-se, dia após dia, com a mesma refeição, proveniente do restaurante “Os três dragões”, que se situa no centro de Lisboa. Um simples telefonema e passado meia hora já se encontra a fumegar à sua porta a melhor comida chinesa da zona. Após o seu delicioso almoço, finalmente tratava da sua vida social. Visitava a sua namorada que vive no Peru, linda de morrer: olhos verdes, rabo firme, seios voluptuosos, a tentação em pessoa. Pelo menos a foto assim dá a parecer. Depois de mais uma sessão frenética e erótica de dactilografia online com ligação directa aos subúrbios de Lima, está na hora de conversar com o seu amigo de infância no Facebook. Mais uma conversa trivial e repetitiva que culmina com a troca de alguns downloads ilegais e um smile com a língua de fora.
Com tudo isto, já o sol se está a pôr, directamente por trás das linhas algo geométricas de Cascais. Está na hora de pedir o jantar. O Pizza Hut sobressaia-lhe sempre à vista na sua lista telefónica, que até tinha uma secção intitulada de “Restaurantes”. Depois do "empanturramento" substituir o deleite inicial proporcionado pelo queijo mozarella, a sua atenção vira-se para a televisão e o programa mais apetecível que estiver a ser exibido àquela hora. Passada uma fatigante hora de televisão toma o seu duche rápido e segue-se mais uma ronda de apostas no bwin.com.. Devido às estatísticas que fazia era fácil para ele prever quem ia ganhar ou perder, que equipa ia marcar mais ou menos ou que jogador ia levar amarelo. Ainda mais fácil era prever que no dia seguinte ia acordar com mais dois ordenados mínimo na sua conta bancária, mesmo que o seu trabalho tenha sido apenas clicar no “rato” três ou quatro vezes, enquanto comia um pão torrado com manteiga de amendoim.
Vai para a cama. Adormece prontamente sem qualquer preocupação, fantasia ou sonho, como se de uma garrafa vazia à espera de ser enchida se tratasse.
Será que tal personagem existe mesmo? Será que não se trata apenas de uma parábola improvisada? Infelizmente tais personagens existem. Pessoas que vivem à margem da sociedade ou, de uma forma mais ténue, que vivem numa nova rede social, uma nova sociedade.
De facto, entrámos na era das redes sociais. Os chats, o hi5, o facebook, o twitter, o messenger. Já não estamos perante meros estrangeirismos mas sim perante algo que, diariamente, regista a visita de milhões de usuários, pessoas mais especificamente, que por lá têm conversas, trocam fotos e “carinhos”, expõem a sua vida pessoal e, no caso de alguns, criam uma nova identidade, uma deliciosa jovem oriunda do Peru, por exemplo. Todas estas linhas de diversão e interacção ou redes sociais como, normalmente são apelidadas, tornaram-se como que uma espécie de um pré-requisito para ter uma vida social saudável e aceitável.
Hoje em dia, no mundo dos adolescentes, por exemplo, um jovem que ainda não tenha criado um perfil no Hi5 ou no Facebook está a entrar, na mente de uma grande maioria, num esquema de auto-exclusão social, como se tal acto fosse uma obrigatoriedade, uma quase lei. Cada vez mais adolescentes e adultos gastam horas nestes ditos sistemas de socialização, onde exploram livremente um mundo virtual sem barreiras físicas, sem muros para saltar, distâncias a percorrer ou direcções a tomar, um mundo onde é fácil de viver, onde impera a “lei do perfil mais visitado”. Trata-se de um passatempo com fácil acesso. Em casa, no escritório, na biblioteca municipal ou no café. Uma grande panóplia de locais está à disposição desta “população”, caso queiram aceder à sua rede social favorita (pobres daqueles que registam as suas patentes, certamente). No entanto, tal passatempo passa rapidamente a vício, um problema que, actualmente, se regista na nova geração. Diariamente, um número imenso de usuários, pessoas volto a frisar, gastam horas do seu precioso tempo a vaguear por este mundo de ligações digitais, números binários e hiperligações que dão origem àquilo a que chamamos de sociedade virtual.
Para trás tem vindo a ficar tudo aquilo a que as gerações anteriores se agarraram para vingar na vida, o estudo, o trabalho árduo e suado, as brincadeiras ao ar livre que hoje tanta saudade trazem, um conjunto de acções e hábitos que, hoje em dia, parecem começar a perder o sentido e o valor que merecem perante o desenvolvimento tecnológico e o processo de globalização que se tem apoderado ferozmente da nossa sociedade.
Um dos pontos mais relevantes desta questão é que todo este processo está directamente ligado aos fenómenos da globalização e do consumismo, pois o que para alguns se está a tornar uma forma de viver, para outros não passa de um negócio que produz capital e lucros exorbitantes através da exploração emocional do ser humano comum. A cada login, um número reduzido de “espertos” ganha mais uns euros que, segundo após segundo, se vão amontoando, dando origem a largas fortunas, a curto médio prazo. Assistimos, portanto, a um processo de desumanização de tal maneira flagrante que é deveras angustiante pensar na forma como este comportamento irá evoluir num futuro próximo e, curiosamente, é algo irónico poder afirmar que uma nova forma de rede social está, no sentido literal da palavra “social”, a levar à própria “des-socialização”.
Um dia, um senhor chamado Ghandi proferiu a seguinte frase “Tudo o que faças na tua vida é insignificante, no entanto é importante que o faças, pois ninguém o fará por ti.”. Não reflectirá esta frase o verdadeiro sentido da nossa vida social? O acumular de experiências, de memórias e acções que se nos impõem ao longo da nossa existência? O nosso primeiro beijo na boca, a nossa primeira briga no recreio, a primeira vez que fizemos amor, o primeiro mergulho no mar, um piquenique com a família, uma discussão acesa, uma boa conversa. Não serão estas as recordações que inundarão a nossa mente quando estivermos suficientemente senis ou lúcidos para avaliar a nossa experiência como ser humano? Não serão todas as interacções humanas, o toque, os cheiros, as palavras proferidas olhos nos olhos, os abraços, que irão um dia fazer-nos ter saudades de ser jovem ou dar força para continuar a enfrentar o turbilhão de emoções que é ou devia de ser a vida? Nunca um Facebook ou um Hi5 será capaz de igualar tal grandiosidade, a grandiosidade de viver, de sentir cada dose de oxigénio como se fosse a última, de corrermos à chuva e nos molharmos, de sentir o vento bater na face, de derramar uma pequena lágrima seja de felicidade ou de tristeza, de sentir o toque de outra pessoa, de amar e ser amado. Nunca as ditas redes sociais conseguirão quebrar a rede mais elementar e pura que existe, a rede natural que constitui cada um de nós e o que nos rodeia, a rede que faz o planeta girar, que traz a vida e a morte e que faz com que nada seja eterno ou garantido. Fazer parte de uma rede social ou virtual? Talvez sim parece ser divertido e inovador. Abandonar tudo aquilo que ao longo dos dias nos tem definido como personalidades individuais e interactivas, como seres humanos? Nunca !
O habitual chop suey de vaca e camarão com caril era o seu próximo alvo. Deliciava-se, dia após dia, com a mesma refeição, proveniente do restaurante “Os três dragões”, que se situa no centro de Lisboa. Um simples telefonema e passado meia hora já se encontra a fumegar à sua porta a melhor comida chinesa da zona. Após o seu delicioso almoço, finalmente tratava da sua vida social. Visitava a sua namorada que vive no Peru, linda de morrer: olhos verdes, rabo firme, seios voluptuosos, a tentação em pessoa. Pelo menos a foto assim dá a parecer. Depois de mais uma sessão frenética e erótica de dactilografia online com ligação directa aos subúrbios de Lima, está na hora de conversar com o seu amigo de infância no Facebook. Mais uma conversa trivial e repetitiva que culmina com a troca de alguns downloads ilegais e um smile com a língua de fora.
Com tudo isto, já o sol se está a pôr, directamente por trás das linhas algo geométricas de Cascais. Está na hora de pedir o jantar. O Pizza Hut sobressaia-lhe sempre à vista na sua lista telefónica, que até tinha uma secção intitulada de “Restaurantes”. Depois do "empanturramento" substituir o deleite inicial proporcionado pelo queijo mozarella, a sua atenção vira-se para a televisão e o programa mais apetecível que estiver a ser exibido àquela hora. Passada uma fatigante hora de televisão toma o seu duche rápido e segue-se mais uma ronda de apostas no bwin.com.. Devido às estatísticas que fazia era fácil para ele prever quem ia ganhar ou perder, que equipa ia marcar mais ou menos ou que jogador ia levar amarelo. Ainda mais fácil era prever que no dia seguinte ia acordar com mais dois ordenados mínimo na sua conta bancária, mesmo que o seu trabalho tenha sido apenas clicar no “rato” três ou quatro vezes, enquanto comia um pão torrado com manteiga de amendoim.
Vai para a cama. Adormece prontamente sem qualquer preocupação, fantasia ou sonho, como se de uma garrafa vazia à espera de ser enchida se tratasse.
Será que tal personagem existe mesmo? Será que não se trata apenas de uma parábola improvisada? Infelizmente tais personagens existem. Pessoas que vivem à margem da sociedade ou, de uma forma mais ténue, que vivem numa nova rede social, uma nova sociedade.
De facto, entrámos na era das redes sociais. Os chats, o hi5, o facebook, o twitter, o messenger. Já não estamos perante meros estrangeirismos mas sim perante algo que, diariamente, regista a visita de milhões de usuários, pessoas mais especificamente, que por lá têm conversas, trocam fotos e “carinhos”, expõem a sua vida pessoal e, no caso de alguns, criam uma nova identidade, uma deliciosa jovem oriunda do Peru, por exemplo. Todas estas linhas de diversão e interacção ou redes sociais como, normalmente são apelidadas, tornaram-se como que uma espécie de um pré-requisito para ter uma vida social saudável e aceitável.
Hoje em dia, no mundo dos adolescentes, por exemplo, um jovem que ainda não tenha criado um perfil no Hi5 ou no Facebook está a entrar, na mente de uma grande maioria, num esquema de auto-exclusão social, como se tal acto fosse uma obrigatoriedade, uma quase lei. Cada vez mais adolescentes e adultos gastam horas nestes ditos sistemas de socialização, onde exploram livremente um mundo virtual sem barreiras físicas, sem muros para saltar, distâncias a percorrer ou direcções a tomar, um mundo onde é fácil de viver, onde impera a “lei do perfil mais visitado”. Trata-se de um passatempo com fácil acesso. Em casa, no escritório, na biblioteca municipal ou no café. Uma grande panóplia de locais está à disposição desta “população”, caso queiram aceder à sua rede social favorita (pobres daqueles que registam as suas patentes, certamente). No entanto, tal passatempo passa rapidamente a vício, um problema que, actualmente, se regista na nova geração. Diariamente, um número imenso de usuários, pessoas volto a frisar, gastam horas do seu precioso tempo a vaguear por este mundo de ligações digitais, números binários e hiperligações que dão origem àquilo a que chamamos de sociedade virtual.
Para trás tem vindo a ficar tudo aquilo a que as gerações anteriores se agarraram para vingar na vida, o estudo, o trabalho árduo e suado, as brincadeiras ao ar livre que hoje tanta saudade trazem, um conjunto de acções e hábitos que, hoje em dia, parecem começar a perder o sentido e o valor que merecem perante o desenvolvimento tecnológico e o processo de globalização que se tem apoderado ferozmente da nossa sociedade.
Um dos pontos mais relevantes desta questão é que todo este processo está directamente ligado aos fenómenos da globalização e do consumismo, pois o que para alguns se está a tornar uma forma de viver, para outros não passa de um negócio que produz capital e lucros exorbitantes através da exploração emocional do ser humano comum. A cada login, um número reduzido de “espertos” ganha mais uns euros que, segundo após segundo, se vão amontoando, dando origem a largas fortunas, a curto médio prazo. Assistimos, portanto, a um processo de desumanização de tal maneira flagrante que é deveras angustiante pensar na forma como este comportamento irá evoluir num futuro próximo e, curiosamente, é algo irónico poder afirmar que uma nova forma de rede social está, no sentido literal da palavra “social”, a levar à própria “des-socialização”.
Um dia, um senhor chamado Ghandi proferiu a seguinte frase “Tudo o que faças na tua vida é insignificante, no entanto é importante que o faças, pois ninguém o fará por ti.”. Não reflectirá esta frase o verdadeiro sentido da nossa vida social? O acumular de experiências, de memórias e acções que se nos impõem ao longo da nossa existência? O nosso primeiro beijo na boca, a nossa primeira briga no recreio, a primeira vez que fizemos amor, o primeiro mergulho no mar, um piquenique com a família, uma discussão acesa, uma boa conversa. Não serão estas as recordações que inundarão a nossa mente quando estivermos suficientemente senis ou lúcidos para avaliar a nossa experiência como ser humano? Não serão todas as interacções humanas, o toque, os cheiros, as palavras proferidas olhos nos olhos, os abraços, que irão um dia fazer-nos ter saudades de ser jovem ou dar força para continuar a enfrentar o turbilhão de emoções que é ou devia de ser a vida? Nunca um Facebook ou um Hi5 será capaz de igualar tal grandiosidade, a grandiosidade de viver, de sentir cada dose de oxigénio como se fosse a última, de corrermos à chuva e nos molharmos, de sentir o vento bater na face, de derramar uma pequena lágrima seja de felicidade ou de tristeza, de sentir o toque de outra pessoa, de amar e ser amado. Nunca as ditas redes sociais conseguirão quebrar a rede mais elementar e pura que existe, a rede natural que constitui cada um de nós e o que nos rodeia, a rede que faz o planeta girar, que traz a vida e a morte e que faz com que nada seja eterno ou garantido. Fazer parte de uma rede social ou virtual? Talvez sim parece ser divertido e inovador. Abandonar tudo aquilo que ao longo dos dias nos tem definido como personalidades individuais e interactivas, como seres humanos? Nunca !
Eduardo Alexandre Nunes da Silva
Formando dos cursos EFA (turma J)
Sem comentários:
Enviar um comentário