A regulação nos professores
O artigo de Leal e Henning (2009) é sem dúvida um contributo “cómico” para se poder entender a supervisão pedagógica num contexto de regulação apesar de usarem termos fortes que poderão de certa forma chocar algumas sensibilidades como, por exemplo, afirmarem que “ao manter os professores regulados, a Supervisão Escolar contribui e reforça a fabricação de sujeitos dóceis e úteis” (idem, p. 253). Fica-se no entanto com a noção, na leitura desse artigo, da óbvia relação entre supervisão e regulação. Exaltam constantemente o necessário “poder disciplinar” que tem de existir na supervisão para se poder obter os resultados desejados onde se incluem as análises e as eventuais correções dos procedimentos realizados. Vieira (2009, p. 200) também faz essa relação ao afirmar “que a supervisão permite a regulação da qualidade da pedagogia”.
Esse poder disciplinar, e aqui disciplinar tem o significado de método/controlo/ordem, promove também a autorregulação uma vez que a ação supervisora é interiorizada pelos sujeitos supervisionados produzindo esse efeito auto-regulador através da apreensão do discurso incitando-os duma forma automática a corrigirem-se e a manterem uma conduta profissional. As autoras chamam a estas sequências como sendo resultado dos “maravilhosos efeitos do poder disciplinar” (ibidem, p. 256). Seguindo este raciocínio, podemos no entanto afirmar que, com tantas maravilhas, a supervisão tem também um efeito suicida pois se bem implementada contribui para a sua inutilidade já que promove a auto-regulação sendo esta característica (a da regulação), provavelmente, a vertente com mais significado no que respeita aos resultados esperados (qualidade na educação) da ação supervisiva. No entanto as autoras chamam-lhe, habilmente, “economia do poder disciplinar” (ibidem, p. 261) e acrescentam que essas transformações no professor supervisionado não se dão repentinamente mas sim “sob a vigilância compreensiva e amorosa de um mestre” (Garcia, 2002, cit. ibidem, p. 258). Vieira (2009, p. 201) também enfatiza que a finalidade principal da supervisão acompanhada é ajudar os formandos [leia-se: candidatos a professores] a tornarem-se supervisores da sua própria prática e que, se isso não acontecer, falhou no essencial” - o parênteses é meu.
Não podia deixar de acrescentar, depois da análise ao engraçado mas reflexivo texto de Leal e Henning (2009), a citação que transcrevo a seguir e que penso que reflecte o pensamento das autoras com assumidas influências de Foulcault:
“Do sujeito livre ao indivíduo que se sujeita, somos como objeto desse poder do qual dependemos e nos sujeitamos à vigilância de alguém. Não há como escapar do poder das disciplinas que individualizam, regulam e modelam nosso jeito de ser humano, atingindo nossa interioridade e nossa conduta social. A sociedade tratou de criar instituições para os que apresentam comportamentos desviantes: prisões e manicómios são exemplos disso” (idem, p.262).
Referências Bibliográficas
· LEAL, Adriana; HENNING, Paula – Do Exame da Supervisão ao Autoexame dos Professores: estratégias de regulação do trabalho docente na Supervisão Escolar. Brasil: Revista Currículo sem Fronteiras, v.9, n.1, pp.251-266, 2009
· VIEIRA, Flávia – Para uma visão transformadora da supervisão pedagógica. Campinas (Brasil): Revista Educação & Sociedade, vol. 29, n 105, pp. 197-217, 2009
Luís Ricardo (Grupo 540)
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