Duas histórias da minha vida
Na nossa vida, a capacidade de resolução de problemas varia em função das aprendizagens que tivemos oportunidade de fazer. Podemos, por isso, dizer que a nossa qualidade de vida aumenta na exacta medida das nossas aprendizagens.
Faz parte da condição humana a capacidade de aprender ao longo da vida (lifelong): aprendemos sempre, quer em contextos mais formais (escola), quer em contextos não formais (trabalho) ou até mesmo informais (tv, internet, amigos, etc.).
Podemos por isso afirmar que a nossa condição de aprendentes (na vida) ou aprendizes (no trabalho) se constitui como o motor dos processos sociais de mudança ou seja, como o núcleo da nossa evolução (pessoal, profissional, etc.).
A primeira história que vou contar passou-se há trinta anos, quando tinha catorze anos e o meu meio de transporte pessoal era ainda uma bicicleta, que o meu pai me tinha oferecido por ter concluído a quarta classe com aproveitamento. Era, porque a partir desse dia, o meu avô resolveu chamar-me para me oferecer uma motorizada bastante velha que possuía.
Perguntou-me então:
-Queres dar uma volta na motoreta?
-Quero! - respondi eu.
-Se conseguires andar bem, eu dou-ta! - exclamou ele.
Fiquei contentíssimo e pensei: "Vou conseguir! Preciso acalmar-me e concentrar-me nas mudanças!"
O meu avô explicou-me o funcionamento destas, dos travões, da embraiagem e do acelerador (aprendizagem informal).
Depois desta explicação, montei na mota, premi a embraiagem com a mão esquerda, meti a primeira velocidade com a mão direita - que as mudanças eram de mão -, acelerei devagarinho conforme a explicação dada pelo meu avô, ao mesmo tempo que ia largando a embraiagem e a motorizada se ia colocando em andamento. Claro que, quando acelerava, o barulho do motor era ensurdecedor, como é próprio da primeira vez que se anda em qualquer veículo a motor. Sem mais demoras lá vou eu “prego a fundo” até perceber que tinha que meter outra velocidade, desta vez a segunda. Pior foi quando decidi virar numa rua apertada. Virei a direcção toda, mas não foi o suficiente para me livrar de uma parede com reboco saliente, de chapisco! E lá ficaram bocados de pele e carne da mão direita!
Com toda aquela adrenalina, provocada pelo tilintar do motor, voltei novamente para junto do meu avô que me esperava no final da outra rua. Decidido a que o meu avô me entregasse a moto, escondi a mão direita donde, por essa altura já escorriam riscos de sangue.
-Como chegaste inteiro, fica lá com a motorizada que eu vou buscar os documentos para te dar! - disse ele, sem se aperceber de nada.
Fiquei muito feliz! A partir daquele dia, já poderia ir aos domingos passear até mais longe, com os meus amigos.
Na nossa vida, a capacidade de resolução de problemas varia em função das aprendizagens que tivemos oportunidade de fazer. Podemos, por isso, dizer que a nossa qualidade de vida aumenta na exacta medida das nossas aprendizagens.
Faz parte da condição humana a capacidade de aprender ao longo da vida (lifelong): aprendemos sempre, quer em contextos mais formais (escola), quer em contextos não formais (trabalho) ou até mesmo informais (tv, internet, amigos, etc.).
Podemos por isso afirmar que a nossa condição de aprendentes (na vida) ou aprendizes (no trabalho) se constitui como o motor dos processos sociais de mudança ou seja, como o núcleo da nossa evolução (pessoal, profissional, etc.).
A primeira história que vou contar passou-se há trinta anos, quando tinha catorze anos e o meu meio de transporte pessoal era ainda uma bicicleta, que o meu pai me tinha oferecido por ter concluído a quarta classe com aproveitamento. Era, porque a partir desse dia, o meu avô resolveu chamar-me para me oferecer uma motorizada bastante velha que possuía.
Perguntou-me então:
-Queres dar uma volta na motoreta?
-Quero! - respondi eu.
-Se conseguires andar bem, eu dou-ta! - exclamou ele.
Fiquei contentíssimo e pensei: "Vou conseguir! Preciso acalmar-me e concentrar-me nas mudanças!"
O meu avô explicou-me o funcionamento destas, dos travões, da embraiagem e do acelerador (aprendizagem informal).
Depois desta explicação, montei na mota, premi a embraiagem com a mão esquerda, meti a primeira velocidade com a mão direita - que as mudanças eram de mão -, acelerei devagarinho conforme a explicação dada pelo meu avô, ao mesmo tempo que ia largando a embraiagem e a motorizada se ia colocando em andamento. Claro que, quando acelerava, o barulho do motor era ensurdecedor, como é próprio da primeira vez que se anda em qualquer veículo a motor. Sem mais demoras lá vou eu “prego a fundo” até perceber que tinha que meter outra velocidade, desta vez a segunda. Pior foi quando decidi virar numa rua apertada. Virei a direcção toda, mas não foi o suficiente para me livrar de uma parede com reboco saliente, de chapisco! E lá ficaram bocados de pele e carne da mão direita!
Com toda aquela adrenalina, provocada pelo tilintar do motor, voltei novamente para junto do meu avô que me esperava no final da outra rua. Decidido a que o meu avô me entregasse a moto, escondi a mão direita donde, por essa altura já escorriam riscos de sangue.
-Como chegaste inteiro, fica lá com a motorizada que eu vou buscar os documentos para te dar! - disse ele, sem se aperceber de nada.
Fiquei muito feliz! A partir daquele dia, já poderia ir aos domingos passear até mais longe, com os meus amigos.
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| A minha primeira motorizada oferecida pelo meu avô |
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| O meu primeiro carro |
Aprender tem um princípio, mas nunca um fim. Aprendemos sempre ao longo da vida e quanto mais aprendemos, mais capacidade temos para interiorizar conceitos mais complexos. Na vida, na escola, na família e no trabalho aprendemos conceitos e adquirimos saberes que nos servem para evoluir como seres intervenientes na sociedade. Para mim não existe a perfeição, mas sim aprender a fazer bem e melhor do que no dia anterior.
Esta outra história de vida que vou contar passou-se quando eu tinha vinte e um anos e tinha acabado de "tirar a carta" de condução de ligeiros. Nessa altura, tirar a carta demorava sensivelmente um ano, por isso comecei as aulas de código de estrada ainda com vinte anos. Já trabalhava há um ano e apanhava muito frio e chuva para ir para o emprego. Mas agora com a carta de condução de ligeiros na mão, a ansiedade de comprar um carrito em segunda mão era muita, pois assim poderia deslocar-me livremente sem apanhar com as gotas de água nos olhos, que mais pareciam agulhas a picar-me, quando chovia e soprava um vento forte.
Numa segunda-feira após o almoço, um colega meu a quem perguntei se conhecia alguém que vendesse um carro barato e bom para mim, alertou-me para o facto de, em determinado stand de automóveis, estar um “Citroen Dyane” barato, económico e ideal para começar a conduzir. Fiquei em “pulgas” para ir com ele vê-lo, quando saísse do emprego. Assim fizemos. Às seis da tarde saímos do trabalho e só parámos no stand. Vi o carro, gostei do aspecto e perguntei o preço ao dono do estabelecimento.
-Cento e quarenta contos. O carro está impecável! - exclamou ele quase certo que tinha cliente, pois os meus olhos deviam brilhar de contente.
No entanto disse-lhe:
-Amanhã venho cá e dou-lhe a resposta, está bem? Não venda o automóvel até amanhã!
Está descansado! - disse o vendedor.
Apressado estava eu para chegar a casa, contar aos meus pais e ter aprovação deles em relação ao negócio que tinha arranjado. Assim que contei à minha mãe ela respondeu:
-Vê lá se te enganam, rapaz! Agora vê lá se compras um carro velho e barato e depois não sais da oficina com ele!
Eu queria lá saber! No outro dia lá estava eu com o dinheiro e a assinar os papéis para a transferência de proprietário.
A partir deste dia a minha qualidade de vida mudou, deixou de ser importante o frio ou a chuva, se era longe ou perto. Contava era a liberdade de poder explorar outras periferias, a partir do centro onde vivia. Tudo mudou e para melhor! A vida sorria-me!!!
Lembro-me de um determinado dia em que estava num estacionamento junto à praia. Chovia torrencialmente, o "fumo" que subia da terra quente era o resultado do choque térmico com a água fria. Não se conseguia ver nada dois palmos à frente do veículo. Só me restava esperar que a enorme quantidade de grossas partículas cristalinas diminuísse. Liguei o rádio, recostei-me no banco e encosto de cabeça do carro e pensei alto:
-Está-se bem aqui, a ouvir música, com este ar quentinho da chauffage, à espera que a chuva passe. Isto é que é qualidade de vida!
Tirada a carta e comprado o carro, com estes dois gestos ganhara asas para transformar uma aprendizagem significativa (que me vai servir para o resto da vida) em mais conforto, liberdade e auto-estima (qualidade de vida).
Esta outra história de vida que vou contar passou-se quando eu tinha vinte e um anos e tinha acabado de "tirar a carta" de condução de ligeiros. Nessa altura, tirar a carta demorava sensivelmente um ano, por isso comecei as aulas de código de estrada ainda com vinte anos. Já trabalhava há um ano e apanhava muito frio e chuva para ir para o emprego. Mas agora com a carta de condução de ligeiros na mão, a ansiedade de comprar um carrito em segunda mão era muita, pois assim poderia deslocar-me livremente sem apanhar com as gotas de água nos olhos, que mais pareciam agulhas a picar-me, quando chovia e soprava um vento forte.
Numa segunda-feira após o almoço, um colega meu a quem perguntei se conhecia alguém que vendesse um carro barato e bom para mim, alertou-me para o facto de, em determinado stand de automóveis, estar um “Citroen Dyane” barato, económico e ideal para começar a conduzir. Fiquei em “pulgas” para ir com ele vê-lo, quando saísse do emprego. Assim fizemos. Às seis da tarde saímos do trabalho e só parámos no stand. Vi o carro, gostei do aspecto e perguntei o preço ao dono do estabelecimento.
-Cento e quarenta contos. O carro está impecável! - exclamou ele quase certo que tinha cliente, pois os meus olhos deviam brilhar de contente.
No entanto disse-lhe:
-Amanhã venho cá e dou-lhe a resposta, está bem? Não venda o automóvel até amanhã!
Está descansado! - disse o vendedor.
Apressado estava eu para chegar a casa, contar aos meus pais e ter aprovação deles em relação ao negócio que tinha arranjado. Assim que contei à minha mãe ela respondeu:
-Vê lá se te enganam, rapaz! Agora vê lá se compras um carro velho e barato e depois não sais da oficina com ele!
Eu queria lá saber! No outro dia lá estava eu com o dinheiro e a assinar os papéis para a transferência de proprietário.
A partir deste dia a minha qualidade de vida mudou, deixou de ser importante o frio ou a chuva, se era longe ou perto. Contava era a liberdade de poder explorar outras periferias, a partir do centro onde vivia. Tudo mudou e para melhor! A vida sorria-me!!!
Lembro-me de um determinado dia em que estava num estacionamento junto à praia. Chovia torrencialmente, o "fumo" que subia da terra quente era o resultado do choque térmico com a água fria. Não se conseguia ver nada dois palmos à frente do veículo. Só me restava esperar que a enorme quantidade de grossas partículas cristalinas diminuísse. Liguei o rádio, recostei-me no banco e encosto de cabeça do carro e pensei alto:
-Está-se bem aqui, a ouvir música, com este ar quentinho da chauffage, à espera que a chuva passe. Isto é que é qualidade de vida!
Tirada a carta e comprado o carro, com estes dois gestos ganhara asas para transformar uma aprendizagem significativa (que me vai servir para o resto da vida) em mais conforto, liberdade e auto-estima (qualidade de vida).
Por: João Marques


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