CALAZANS recebe Xutos

XUTOS & PONTAPÉS
no
PONTO & VÍRGULA

Boa-disposição. É o sentimento que impreterivelmente nos domina ao ouvirmos Carlos Guilherme (Gui) e Carlos Eduardo (Kalu). A imensidão de um espaço torna-se inevitavelmente reduzida e aproxima-nos, tal é a simplicidade e descontracção que com eles se vive neles transparece. Não estão à nossa frente dois elementos dos Xutos e Pontapés, a banda que há mais de 30 anos conquista «miúdos e graúdos», mas dois colegas com quem convivemos diariamente. Ou pelo menos é esta a sensação que Gui e Kalu nos transmitem e é também esta a característica que, segundo «Kalu», fez deles «os rapazes não pretensiosos e humildes que as pessoas foram querendo ouvir».

Os dois elementos de uma das bandas de rock Portuguesas que atravessa e atravessou gerações estiveram na escola, no passado dia 30 de Abril, a convite do professor de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) Nelson Gomes. Num estilo descontraído e intimista, trouxeram à aula do “Curso Profissional de Sopro e Percussão” uma dinâmica que os jovens músicos jamais esquecerão. Depois de passarem pelo espaço do Ponto & vírgula e de inúmeros autógrafos darem no auditório, Gui e Kalú não perderam o sorriso e a malandrice perpetuou nos seus rostos engrandecendo-os sublimemente.

Uma chave para o sucesso? Não há, mas são «os seus piores críticos».


P & V – Os Xutos surgiram num ano em que o governo constitucional era recente e a revolução dos cravos estava ainda patente na memória do povo. Quão fácil era criar uma banda nessa altura? Como surgiu a ideia de formar a banda?
X & P – Tinha passado o 25 de Abril, era uma altura em que nós (jovens) começámos a fazer quase o que queríamos. Vinham de Inglaterra influências do punk e começaram então a surgir uma quantidade de bandas punk. (Kalu)
Os Xutos surgiram porque na altura o avô do Zé Pedro lhe tinha deixado uma guitarra, ele «nem três acordes aprendeu» e decidiu logo formar uma banda. (risos) (Kalu)
Alunos – Como foi a mudança do emprego que tinham para a música?
X & P – «Epá»… a minha foi fácil. Era massagista. (risos) É verdade… e é preciso ter jeito. (risos) Na altura recebia 15 contos por mês, toquei uma vez com os Xutos e recebi 11 contos… nem pensei duas vezes. (Kalú)
Alunos – Vocês têm qualificações na área musical?
X & PComo o país está hoje, até já temos qualificações a mais. (risos) (Gui)
Temos feito formação aqui e ali ao longo dos anos. (Kalu)
Alunos – A música que mais gostaram de tocar?
X & P – «Remar, remar». Na altura não tinha dinheiro, negociei com o rapaz do estúdio e pediu-me 150 contos. Um balúrdio se pensarmos que recebíamos 15 contos por mês. Mas arranjei o dinheiro e começámos a gravar, até que nos compraram o disco ainda antes de acabarmos e eu fiquei safo! (risos) (Kalu)
Depois do disco «78-82» havia bandas muito tristes, um Rock muito deprimente, todos sempre vestidos de preto (Gui olhou de esguelha para o Kalu, risos) e corríamos o risco de cair em esquecimento. (Gui)
«Remar, Remar» tinha tudo a ver com o que estávamos a passar na altura: remar contra tudo e todos. (Kalu)

Alunos – O melhor concerto até hoje?
X & P – Em termos de qualidade ou de organização? Em meados de 90, em Setúbal, num parque de estacionamento. Tocámos bem, foi impecável. Mas os 25 anos dos Xutos foram muito bem organizados. No entanto, acabamos por nunca aproveitar bem porque é uma pressão enorme. (Kalu)
Alunos – O momento mais embaraçoso?
X & P – (risos) Foram tantos. (Gui)… Nos primeiros anos foi duro. (Kalu)
Alunos – Com que regularidade ensaiam?
X & P – Na época de tocar a sério, entre Abril de Setembro ensaiamos 2 a 3 vezes por semana em Março e Abril. Quando o espectáculo está montado e tudo pensado… (Kalu) Não ensaiamos: ensaiamos no concerto. (risos) (Gui)
Alunos – Quantas pessoas trabalham convosco?
X & P – Neste momento são 30 pessoas na estrada. Para pôr estes «gajos» na estrada levamos 25 pessoas. Temos de assegurar profissionais que nos safem em determinadas situações de luz e electricidade. Agora até gerador levamos. (Kalu)…Os nossos técnicos são uns grandes chatos. (risos) (Gui)!
Alunos – Deve ser cansativo estar sempre na estrada.
X & P – O quê? De terra para terra? (Gui) «Quem corre por gosto não cansa.» (Kalu)
Alunos – Qual foi o vosso melhor ano?
X & P – Desde 98 até agora tem sido o nosso melhor momento. (Gui)
Mas 89 foi o nosso melhor ano. Demos cerca de 90 concertos. Só em Agosto tivemos 29 concertos. (Kalu)
Alunos – E quando é que notaram menos afluência nos concertos?
X & P – Na altura de 90. (Kalu)
P & V – O que é que mantém uma banda unida durante mais de três décadas? Há «um homem do leme» ou um «circo de feras»?
X & P – É como um casamento… às vezes existem desentendimentos. (Gui)
                Mas acima de tudo existe um respeito muito grande na composição das músicas, alguma inteligência e pouco orgulho. Já sabemos, quando pensamos numa música, que temos de pensar de mente aberta a modificações, porque entre nós é sempre mudada. A música é uma criação em conjunto. Um ritmo meu, uma nota dele, … (Kalu)
Alunos – Como gerem a vida pessoal com a vida profissional?
X & P – Em termos pessoais… mal acabo um concerto vou logo para casa! Tenho lá um sofá… (risos) (Gui)
Vendo bem não passamos muito tempo fora de casa. São cerca de dois meses se fizermos 60 concertos num ano. (Kalu)
Alunos – Já tiveram desentendimentos familiares por tocarem no Natal ou no Ano Novo?
X & P – Normalmente nessa altura pedimos 3 vezes o cache normal. Se aceitarem, «olha porreiro, curtimos» o ano no dia 1. (risos) (Kalu) Se não passamos com a família. (risos) (Gui)
Alunos – Gui, quando começaste a tocar?
X & P - «Epá»… foi muito cedo, era muito miúdo, tinha 21 anos. (risos) Entretanto toquei até aos 27 anos em casa, por iniciativa própria até que entro na academia e tiro 4 anos de clássico. (Gui)
Alunos – E as vossas influências musicais?
X & P – Beattles, Led Zepplin, Clash. Led Zepplin para mim é a melhor banda do mundo de sempre. Não gosto muito dessas bandas a cantar uma música estereotipada. (Kalu)

Alunos – Qual é a vossa opinião acerca dos vencedores do festival da canção?
X & P – Vão desmitificar «esta coisa» que é o festival da canção. (Kalú)
P & V - Assistimos nos vossos concertos a verdadeiros encontros geracionais. Como é que acham que se explica isso? Como é que uma banda consegue agradar a gerações tão diferentes?
X & P – É culpa dos pais. Começam logo desde cedo a pôr os «putos» a decorarem as nossas letras. (risos) (Kalu)
P & V – Existe um segredo para este sucesso?
X & P – Nunca pensamos em termos de sucesso, ele aparece naturalmente. Mas somos os nossos maiores críticos. Criticamos sempre o nosso trabalho. Quando a banda cresce, aí tudo se complica: dinheiro, direitos de autor, pessoal. Aí tivemos mais cuidado com quem estava envolvido, principalmente depois de o nosso manager nos ter roubado uma quantidade dinheiro. (Kalu)
Já na Apple, quem é que não pensou «aquele é doido» quando deu à marca o símbolo de uma maçã com uma dentada? (risos)
P & V – Os prémios que ganharam até hoje… foram metas alcançadas ou pilares para uma meta futura? Quais são as vossas perspectivas? Será que ainda vos vamos ver a actuar com os vossos netos no público (não é que vos esteja a chamar velhos)?
X & P – Sem dúvida. Aliás, o meu neto já está lá nos concertos. Continuamos enquanto podermos. (Kalu)
P & V – Pessoas influentes na área musical referem-se à música portuguesa como uma área em que a qualidade do trabalho produzido tem vindo claramente a aumentar ao longo dos anos. Partilham da mesma opinião?
X & P – Há bandas muito boas, sem dúvida. (Kalu) Até pela facilidade de propagação das músicas. Mas um bom vocalista continua a ser fundamental. Em relação às bandas que cantam em Inglês… se tantos anos tivemos influência estrangeira e se sabemos falar inglês, porque não aproveitar? (Gui) Mas é como tudo. Os outros diziam «Chiclete, mastiga e deita fora». Há muito talento hoje em dia, muita diversidade, mas é ingrato porque num dia estão dentro e no outro estão fora. (Kalu)
P & V – Que conselho ou lema dariam aos jovens músicos que hoje tentam singrar na carreira?
X & P – Se são bons, se tiverem sorte: boa. Se não, pelo menos tentaram. (Gui) É fundamental serem bons, claro, estarem bem apoiados no mercado de trabalho e saberem as bases. Eu admito que não sei ler música, se fosse hoje dificilmente chegava onde cheguei, no entanto gosto de tocar e não o trocaria por nada. (Kalu)
P & V – Vivemos num  “Mundo ao Contrário”, os “Dados (estão)viciados, o país precisa de um “Esquadrão da morte” ou basta-nos dar Xutos & Pontapés para que os “Gritos Mudos” caiam em “Tentação”?
X & P – (risos) Um esquadrão da morte. (Kalu) Sem dúvida. (Gui)
P & V – Uma última pergunta… o que acham que teria sido a vossa carreira se tivessem mantido o nome «Beijinhos e parabéns»? … não precisam de responder!
X & P – (risos)


Por: Mariana Moura

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