Conto

MUDANÇA RADICAL

(ou de como uma lisboeta de gema
se apaixona pela Marinha Grande)


Tenho 22 anos, vivo em Lisboa com os meus pais e trabalho num Centro Infantil.
O meu último ano de vida liceal não correu muito bem: chumbei no exame de matemática... Uma chatice! Mas como gosto do que faço, acabou por correr bem.
O meu namorado, o Cláudio, vive também em Lisboa e trabalha em artes gráficas.
A vida corre suave e agradavelmente.
Um dia o Cláudio diz-me:
- A minha firma vai mudar para Pataias, Marinha Grande e querem que eu vá. A proposta é bastante aliciante mas acho que é uma decisão que devemos tomar os dois, portanto temos que analisar a situação.
O embate, a surpresa, as dúvidas… “Como resolver o assunto?”
Após estudos de prós e contras, análises detalhadas e saturantes, resolvemos: - Vamos os dois! Mudemos de ares!
Estou apreensiva, nasci em Lisboa, sempre vivi em Lisboa, respiro Lisboa…. Como será uma cidade pequena? Como serão as gentes? Os costumes?
Nada como experimentar para ficar a saber.
No meu local de trabalho, estavam a precisar de dispensar pessoal, portanto candidatei-me ao fundo de desemprego e vim, à aventura, para esta terra desconhecida, sem trabalho, sem ocupação e sem conhecimentos, mas cheia de expectativas.
Primeiro passo: procurar casa dentro de um orçamento limitado:
Já está! A nossa, a minha primeira casa, conseguimos!
Segundo passo: mudança de algumas coisas que fomos conseguindo arrebanhar de casa dos pais, dos avós, dos amigos…
Também bem sucedido!
Instalação completa. Cansaço total. Necessidade de descompressão. Que fazer?
Uma ida ao cinema ajuda. Sair à porta e perguntar a quem passa: “onde é o cinema”?
“O Cinema? Cinema… Em Leiria”!
Primeiro embate: já não estamos na grande cidade. Contorna-se, aluga-se um DVD, vê-se em casa e comem-se à mesma as pipocas.
O Cláudio, todos os dias, vai trabalhar e eu fico em casa, ainda atarefada a dar toques e retoques, e a aguardar o seu regresso.
Inscrição no Centro de Emprego. Para já… Nada!
Não é fácil: a desocupação, a espera…
Parto à descoberta da cidade. É simpática, limpa, arejada, iluminada.
A família tenta visitar-nos aos fins-de-semana para saber como estamos, como passamos, preocupados com esta mudança tão radical nas nossas vidas.
Por fim, um emprego espreita, também a cuidar de crianças. Gosto. Faço amizades no emprego.
O Cláudio, entretanto, muda de área para uma empresa maior, onde também conhece mais gente.
Vamos fazendo amizades, convivendo com as pessoas da terra, que demonstram ser afáveis e amigas.
E assim nos apaixonámos por esta cidade, que nos viu crescer, passar de jovens a adultos.
 E agora, que mais precisamos de fazer nesta terra? O que se deve dar e tirar da terra: frutos. E assim partimos para a constituição de família, dando dois eleitores à Marinha Grande, cidade que nos acolheu, onde somos felizes, de onde não pensamos sair, de tal forma enraizados e já “marinhotos”, que, quando vamos a Lisboa, achamos detestável o trânsito, a poluição, o não conseguir lugar para estacionar, a azáfama, o stress e a correria das pessoas que ainda lá conseguem viver.

Texto: Ana Filipa Morgado Paiva – formanda dos Cursos EFA, Turma G

1 comentário:

  1. Quando amamos alguém tanto que nem o céu é limite, todas as circunstâncias da vida brilham sob uma luz mais clara e bonita. Mudar de cidade é irrisório perante esse sentimento e fazemos as circunstâncias se adaptarem a nós. Para Ortega y Gasset, cada um de nós é ele mesmo e a sua circunstância. Mas, se as circunstâncias nos moldam, também nós moldamos as circunstâncias. A junção de duas circunstâncias é difícil mas possível se desejada suficientemente. E haverá maior e mais influente circunstância do que o Amor?
    Além da situação em si mesma aqui descrita da confluência de dois corações no mesmo sentimento, gostei bastante do pano de fundo que se torna personagem principal neste conto sobre duas pessoas e a Marinha Grande. Qualquer um pode encantar-se e colher a maior maçã da árvore mas tem mais sabor e encanto a maçã mais pequena no alto da árvore.

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