Uma lição de vida

UMA LIÇÃO DE VIDA

(ou apenas mais um júri de validação de competências, que nos tocou por ser realmente diferente)

Enquanto neste mundo de grandes e mediáticos eventos, nesta terra onde se cultiva a vaidade e cada um se presume de intolerantes superioridades perante aqueles que julga inferiores, neste psicótico quotidiano em que perdemos o tempo a correr atrás de futilidades, na nossa Escola Eng.º Acácio Calazans Duarte, aqui mesmo, sem que muitos notassem, aconteceu algo de simplesmente belo: num júri de validação de competências do RVCC, para adultos com défices cognitivos, abriram-se portas luminosas de esperanças, e viveram-se verdadeiros momentos de felicidade e realização pessoal.
Não é que tenha havido algum facto daqueles que, usualmente, enchem as parangonas dos jornais ou fazem deslocar comitivas ministeriais para receberem os louros dos grandes feitos, não é que se tenha atingido alguma meta preconizada pelos grandes planos governativos de sucesso escolar, para se exibir no cômputo das eleitoralistas estatísticas, não é que se tenha batido algum record digno de figurar em qualquer livro de anais e feitos desmesurados… apenas cinco cidadãos deste país, cinco seres humanos, tantas vezes menosprezados, tantas vezes ofendidos na sua dignidade, tantas vezes humilhados e desprezados, sentiram que se abriu um caminho novo para dar um outro sentido às suas vidas. Cinco pessoas que, por via deste caminho de descobertas, se sentirão, hoje, por certo, mais cidadãs, capazes de participar mais activamente na sociedade que sempre os subalternizou e que, por via das novas ferramentas de confiança que lhes foram proporcionadas, sabem que poderão ainda ultrapassar novos desafios.
Para aqueles que passam esta vida só a olhar para as imagens das aparências e da hipocrisia reinantes, para os que não conseguem ver para além das postiças cores da ilusão, tudo isto poderá parecer uma ninharia, um caso sem qualquer relevância, mais um daqueles acontecimentos que poderão ficar já arrumados no cesto das inutilidades e do esquecimento. Contudo, eu, que não sou dado aos panegíricos e aos discursos barrocos de grandes circunstâncias, posso afiançar-vos que, naquela tarde, senti um orgulho desmedido por poder compartilhar com aqueles cinco seres humanos de tão francos e vivos sentimentos e com a equipa de formadores que os acompanhou, de um momento de tão grande e sincera felicidade. Naquela memorável tarde do dia 17 de Dezembro, digo-vos sinceramente, senti uma espécie de inveja, por não ter sido um dos formadores que conduziram aqueles cinco formandos a desbravar os seus novos caminhos, por tudo o que esses meus colegas ganharam, pelo que aprenderam com esses seres tão especiais, pelo grato afecto que deles receberam, tão sincero e tão verdadeiramente espontâneo.
Por muito que viva, nunca me irei esquecer da emoção de Adília, aquela grande mulher, que, apesar de todas as contrariedades, lutou e subiu a vida a pulso, criando dois filhos, tendo ainda forças e esperanças para sonhar que se poderá realizar ainda mais, com a oficina de modelagem de barro que idealizou; não poderei esquecer a doçura e a sensibilidade do Armando, aquele homem-criança que, apesar das violências sofridas, ainda sonha com a música grandiosa de Beethoven, ou com os batuques africanos da sua longínqua terra natal, e que nunca esconde o orgulho que tem na sua profissão de “Office-boy”; não esquecerei o sempre sorridente Marquito, como gosta de ser chamado, que vive no permanente sonho de ser um exímio organista, animador de festas e convívios; assim como não esquecerei as doces Dalila e Sara, que da cozinha fazem a sua arte, distribuindo a sua meiguice e a sua ternura por aqueles que a sorte ou a vida já deixaram mais vulneráveis, como é o caso desta última, que cuida com desvelo dos idosos do lar onde é assistente operacional.
E foram estas cinco pessoas simples, de vidas humildes, tantas vezes rotuladas de inaptas ou incapazes, por esta sociedade que tudo quer formatar, que proporcionaram o privilégio de se viver, nesta nossa Escola, àqueles que assistiram àquela sessão de júri do RVCC, o compartilhar com elas de um momento supremo e irrepetível de sincera felicidade.
Para mim, que já sou professor desta Escola há 26 anos, este foi e será um dos momentos mais marcantes da minha vida, como profissional e como ser humano: nem a remodelação das instalações, nem o choque tecnológico, nem as constantes reformulações de currículos, nem as inaugurações de pompas e circunstâncias, com calendário eleitoral previamente marcado, me poderão transmitir um tão vivo sentimento de felicidade e de dever cumprido.
Sem dúvida que é assim, a abrir caminhos de esperança, que a Escola cumpre realmente a sua função de formar, educar e ensinar, fazendo dos seus alunos e formandos (e porque não dizê-lo, dos professores e funcionários) cada vez melhores e mais conscientes cidadãos, a fim de construirmos uma sociedade mais tolerante, mais capaz, na aceitação da diferença e na plena integração de todos os indivíduos, como cidadãos de plenos direitos.
Por: Jorge Alves

1 comentário:

  1. o sucesso do CNO calazans parece ja ser pratica habitual, hoje mesmo mandei uma msg a minha mediadora dando os parabens a toda essa massa de professores que por dinheiro ou por realizaçao pessoal la se arriscam no pos laboral... uns parabens para todos esses professores! é bom que se diga para que o sucesso continue.

    Cumps
    i.ginja

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